SOBRE O EDIFÍCIO
A capela da Ordem Terceira Secular de S. Francisco foi erigida na primitiva que os padres da Ordem Terceira de S. Francisco de Nossa Senhora de Jesus ocuparam antes da construção do seu convento. No Livro 1.º das Escrituras da Ordem Terceira Secular de S. Francisco, à guarda do Arquivo da Fraternidade de Jesus, reconhece-se a escritura feita pelo tabelião Gaspar da Costa, a 9 de Agosto de 1640, tendo como outorgantes, os religiosos do convento da Ordem Terceira de S. Francisco de Nossa Senhora de Jesus, frei Duarte da Conceição, vigário provincial, frei Manuel Botelho, ministro e ainda os padres definidores da comunidade, em favor dos irmãos da Venerável Ordem Terceira. O contrato notarial legitimava legalmente a doação da igreja velha para os padres da Ordem Terceira Secular fazerem a sua capela, sacristia, sala de despacho e mais dependências necessárias, e ainda o seu jazigo.
Conhece-se, através da documentação do mesmo arquivo, o nome do mestre pedreiro responsável pela construção da capela: Jacinto Rodrigues que, no dia 16 de Agosto de 1640, assina com a mesa da Ordem Terceira Secular de S. Francisco um acordo de obra.
Cerca de 1690 ainda se faziam obras na Capela e Hospital de Jesus, registando-se, segundo informação documental, vários gastos nos anos de 1694/95. A data de 1696 está inscrita num portal situado no corredor de acesso à capela, podendo assinalar a conclusão das obras da capela e hospital.
Estas obras não estiveram isentas de percalços e demoras, documentando-se um embargo interposto por Aires de Saldanha a 28 de Outubro de 1697, alegando que as janelas da enfermaria do Hospital de Jesus tiravam privacidade às suas casas: “as genellas da enfermaria do Hospital que fez a dita Ordem, por lhe devaçarem as suas casas, e sobre os ditos embargos correm pleito há alguns annos e está a dita obra parada”.
As partes litigantes acabam por desistir do pleito, com a condição imposta por Ayres de Saldanha “que as ditas janelas se acabem na forma que estão dispostas na planta da dita obra da enfermaria, com declaração de que a tal enfermaria será para assistirem mulheres, e não poderão residir nela homens, que com suas vistas usem mal das ditas janelas devassando-se as casas dele, Aires de Saldanha”. Pela proximidade do Hospital de Jesus com as casas do referido Ayres de Saldanha, e certamente pelas boas relações que vieram a desenvolver, assinala-se ainda a 18 de Agosto de 1702, a redacção de “Escritura de licença que o senhor Aires de Saldanha de Meneses e Sousa deu à Venerável Ordem Terceira para se fazer o cano da secreta do Hospital da dita Ordem pelo pátio da cerca das suas casas”, já que a Ordem não possuía recursos financeiros para fazer o dito cano pela rua pública até ao mar.
Pensa-se que o Hospital terá iniciado a sua actividade no ano de 1703, pois é nesse ano que se registam os primeiros pagamentos a uma funcionária de nome “Joana de Oliveira, que assiste no Hospital, com que se lhe satisfaz o mês de Novembro”.
O terramoto de 1755 causou alguns estragos no imóvel, obrigando os irmãos a reunirem-se “em barraca na cerca do convento de Nossa Senhora de Jesus”, presididos pelo ministro, António Saldanha de Albuquerque, a 25 de Janeiro de 1756. Nessa reunião acordaram oito propostas para obstar aos estragos decorrentes do terramoto.
A 18 de Maio de 1757 registam-se gastos no valor de 2.930$015 nas obras do hospital e da capela, as quais decorriam desde 5 de Julho de 1756. No dia seguinte aparece a primeira assinatura de Sebastião Joseph de Carvalho e Mello como irmão da Ordem Terceira Secular de S. Francisco. Durante este período conturbado na história do imóvel, o hospital continuou aberto.
Entre os anos de 1821 a 1844, por efeito das guerras liberais, o edifício do hospital e do convento sofreu algumas alterações nas suas rotinas habituais, não havendo, por exemplo, eleição de irmãos durante esses anos. Cerca de 1830, o hospital chega mesmo a ser ocupado por uma delegação militar.
No século XX, concretamente entre os anos de 1927-1930, o imóvel sofre algumas alterações, ampliando-se as instalações hospitalares, continuando, contudo, na posse da Venerável Ordem Terceira Secular de S. Francisco de Jesus, situação que se mantém até aos dias de hoje.
Sílvia Ferreira
Como citar: Sílvia FERREIRA, “Capela e Hospital da Ordem Terceira Secular de S. Francisco” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.
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Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora de Jesus / Igreja de Nossa Senhora de Jesus, Ficha de inventário do IHRU, N.º de IPA 00004945, em www.monumentos.pt, consultado em Dezembro de 2013.