SOBRE O EDIFÍCIO
As obras da Capela de Nossa Senhora de Monserrate tiveram início a 1 de agosto de 1761, graças aos donativos dos “Mestres Fabricantes das Sedas Largas”, tendo sido concluídas em 1768. A 17 de junho desse mesmo ano, o rei D. José tomou a ermida sob a sua direta proteção, doando à congregação homónima o terreno onde se implantavam a capela — no vão do quinto arco do Aqueduto das Águas Livres —, a sacristia e as respetivas dependências. Isenta, por determinação régia, da jurisdição eclesiástica da paróquia de Santa Isabel, a ermida foi sagrada a 15 de agosto de 1768, na presença dos monarcas.
A Capela de Nossa Senhora de Monserrate não estava prevista no plano inicial do Bairro das Águas Livres, como atesta o desenho do arquiteto Carlos Mardel, datado de 1759. A edificação desta área resultou da iniciativa pombalina de reativação da Fábrica das Sedas — criada em 1734 por D. João V, segundo o projeto do empresário francês Robert Godin — com vista à implementação do desenvolvimento industrial. O projeto do bairro articula-se com o complexo monumental do Aqueduto das Águas Livres, do Arco das Amoreiras e da Mãe d’Água — também da mão de Mardel — através de uma malha ortogonal de moradias baixas que se estendia pela zona das Amoreiras, delimitada entre a Mãe d’Água, a atual rua Artilharia 1, o Rato e Campolide.
Antes da construção da capela, os fabricantes da seda, já devotos da Virgem de Monserrate, celebravam o culto numa construção de madeira implantada no Alto de São Francisco. Com efeito, os artífices associados à Fábrica Real das Sedas encontravam-se igualmente congregados na Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate — facto que explica o donativo que permitiu a edificação do novo templo. Cabiam à Irmandade funções de reconhecimento profissional, proteção social e comunhão de prática religiosa, podendo igualmente assumir tarefas mais específicas. Por exemplo, em 1771, a Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate ficou responsável pela manutenção das árvores de amoreira plantadas na zona do atual jardim das Amoreiras, com vista a suportar a criação de bichos-da-seda.
A capela de Nossa Senhora de Monserrate caracteriza-se pela sobriedade arquitetónica e pela sua localização particularmente invulgar, sob o quinto arco do aqueduto. De planta interior oitavada, apresenta uma fachada singela, rematada por frontão triangular. A torre sineira insere-se no fundo do edifício, devido aos limites espaciais impostos pela arcaria do aqueduto, que inviabiliza outra solução. A planta e o alçado da igreja, patentes num desenho à guarda do Museu Nacional de Arte Antiga, poderão ser da autoria de Carlos Mardel (Mangucci et al., 2017, p. 174). Neste caso, o arquiteto húngaro terá acompanhado apenas a fase inicial da sua construção, uma vez que faleceu em 1763, passando a direção da obra do complexo das Amoreiras para Miguel Ângelo de Blasco.
Em 1783, a Irmandade encomendou à Real Fábrica de Loiça um silhar de azulejos azuis e brancos, elemento que veio integrar o programa decorativo original da capela. Ao longo do século XIX, a igreja foi alvo de obras de remodelação, designadamente em 1821 e 1878. Estas últimas intervenções poderão estar relacionadas com as transformações efetuadas na praça em 1863, por controversa deliberação camarária, nomeadamente a remoção das amoreiras e a implantação de um jardim romântico, bem como a substituição do chafariz original. Durante o século XX, registaram-se apenas obras ordinárias de manutenção e restauro.
A Capela de Nossa Senhora de Monserrate surge claramente representada na Vista da Academia Nacional de Belas-Artes, constituindo um dos elementos mais relevantes para a datação do desenho, uma vez que o facto de a sua construção ter terminado precisamente em 1768 permite balizar cronologicamente a execução da obra.
Michela Degortes
BIBLIOGRAFIA
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MANGUCCI, Celso, CÂMARA, Alexandra Gago da, VARÔES, Teresa – “No vão do quinto arco das Águas Livres. Os azulejos da Fábrica do Rato para a Ermida de Nossa Senhora de Monserrate”, em Cadernos do Arquivo Municipal 2ª Série, Nº 7/janeiro – junho 2017, pp. 171-191.
https://doi.org/10.48751/CAM-2017-7204
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Internet
Capela de Nossa Senhora de Monserrate – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106460721, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=12691 (consultado a 2026-03-21)