SOBRE O EDIFÍCIO
Integrado na rede de chafarizes e tanques distribuídos ao longo da linha do Aqueduto das Águas Livres, o chafariz do Cais do Tojo situava-se entre a atual Travessa do Cais do Tojo e o Largo do Conde Barão, sendo abastecido pelo ramal denominado «da Esperança».
Deste chafariz existem alguns testemunhos iconográficos, incluindo fotografias e desenhos que remontam ao século XIX, mas a sua representação na Vista da Academia Nacional de Belas Artes constitui, até à data, a única conhecida do século XVIII. Nesse desenho, o chafariz é apenas parcialmente visível, distinguindo-se claramente o frontão e parte da estrutura de suporte, enquanto o restante permanece oculto por construções abarracadas situadas à beira-rio.
O chafariz do Cais do Tojo terá sido construído entre 1766 e 1768. Com efeito, em 1766, foi criada a “Mesa do Donativo do Cais do Tojo da Boavista”, com a função de proceder à cobrança das receitas provenientes do dito Donativo, um imposto municipal instituído por resolução régia de 21 de março de 1766 e cobrado a partir de 1769[1]. Obras “nas fontes e tanques do Cais do Tojo” são mencionadas na documentação relativa às medições efetuadas no Aqueduto das Águas Livres entre 1 de outubro de 1767 e finais de setembro de 1768 (Moita, 1990, Vol. I, p. 290). O chafariz encontra-se representado no levantamento topográfico de Filipe Folque de 1856, mas já não figura nas plantas da cidade posteriores a 1876, pelo que terá sido demolido antes dessa data. Mantém-se a toponímia local – nomeadamente na designação da rua do Cais do Tojo, e da travessa do Cais do Tojo – sendo o topónimo “tojo” derivado do nome da planta arbustiva homónima (Ulex europaeus L.), «que era utilizada tradicionalmente como combustível numa série de atividades, designadamente, nas diversas olarias existentes nas zonas de Santos e de Santa Catarina» (Silva, 2025, 313).
O chafariz do Cais do Tojo possuía dois tanques: um voltado a norte, onde corriam três bicas, e outro, de maiores dimensões, situado a sul e destinado à lavagem de roupa, que terá sido demolido em 1836. O conjunto destacava-se pela plasticidade do painel que integrava as bicas, composto por elementos curvos de pedra lavrada, sobrestados por um frontão triangular coroado por um coruchéu. Esta arquitetura peculiar encontra-se representada numa gravura de Luís Gonzaga Pereira (1796 – 1868) de 1821, onde ainda é visível o tanque das lavadeiras, e num precioso desenho realizado por Charles Landseer durante a sua visita a Lisboa, em 1825[2]. Este elemento já não surge, porém, numa fotografia tirada pelo pintor e fotógrafo francês Amédée de Lemaire-Ternante (1821-1900)[3], que remonta a 1858.
O chafariz articulava-se ainda com outro tanque de maiores dimensões, localizado na atual Rua do Cais do Tojo (antiga Rua Nova do Cais do Tojo), claramente identificável no levantamento de 1856 de Filipe Folque. Tal como o chafariz, também este tanque se encontra representado na Vista da Academia Nacional de Belas Artes, onde é visível o frontão curvo encimado por três coruchéus.
Michela Degortes
[1] Edital de 2 de novembro de 1769. A documentação relativa a este imposto, constituída por livros de receita do donativo à Mesa do Cais do Tojo da Boavista, é disponível em https://arquivomunicipal3.cm-lisboa.pt/X-arqWEB/ (2026-02-20).
[2] O desenho, a carvão, é publicado em Bethel, 2010, p.61, onde o chafariz do cais do Tojo está identificado como “Fonte da Ribeira Velha”. Charles Landseer foi o artista oficial da missão diplomática britânica chefiada por sir Charles Stuart, que partiu de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1825. Entre março e maio desse ano, Landseer esteve em Lisboa, tendo realizado vários desenhos da cidade e dos seus arredores.
[3] Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Centro Português de Fotografia (CPF), Coleção Alcídia e Luís Viegas Belchior (CALVB), Álbum Ternante sobre Lisboa (1858), PT-CPF-CNF-CALVB-0038-000053_m0001.jpg
BIBLIOGRAFIA
Fontes
Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa (AML), Receita do Donativo na Mesa do Donativo do Cais do Tojo da Boavista (2026-02-20)
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Centro Português de Fotografia (CPF), Coleção Alcídia e Luís Viegas Belchior (CALVB), Álbum Ternante sobre Lisboa (1858) PT-CPF-CNF-CALVB-0038-000053_m0001.jpg (2026-02-20)
Referência Bibliográficas
ANDRADE, Velloso – Memória sobre chafarizes, bicas, fontes, e poços públicos de Lisboa, Belém e muitos logares do termo, 1851.
BARREIROS M. Helena – Retratos de cidades. A vista de Lisboa da Academia da Belas Artes. In CARITA, Hélder, GARCIA, José Manuel (Eds.), A Imagem de Lisboa. O Tejo e as Leis Zenonianas da Vista do Mar, Lisboa: CML IHA/FCSH/NOVA, 2019, pp. 187-201.
BETHEL, Leslie (org.) – Charles Landseer: desenhos e aguarelas de Portugal e do Brasil, 1825-1826, São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010.
CASTILHO, Júlio de – A Ribeira de Lisboa. Descrição Histórica da Margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho. 2ªed. Lisboa: CML, 1954-1966, Vol. IV, pp. 80, 90, 241.
MOITA, Irisalva (org.) – D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa, 2 vol., Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1990.
PEREIRA, Luís Gonzaga, Album de Chafarizes e Bicas de Lisboae outras terras de Portugal, 1821.
RIBEIRO, Maria de Lourdes – Urbanismo Pombalino. As praças públicas. Os chafarizes. In Cadernos do Arquivo Municipal nº 2/1998, pp. 98-113.
ROSSA, Walter – Além da Baixa – Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa, 1998.
SILVA, Augusto Vieira da – Dispersos, 3 vol., Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1960, p.93.
SILVA, Inês Costa Ferreira Mendes da – A praia da Boa Vista. Centro económico de Lisboa na transição do século XVII para o século XVIII. Tese de Doutoramento em História Maritima. Universidade de Lisboa, 2025.