SOBRE O EDIFÍCIO
O Baluarte de Alcântara, também conhecido como Baluarte do Sacramento ou de Alfarrobeira, integrava a linha de fortificações terrestre, amuralhada e abaluartada, que cercava Lisboa e os arredores (de Alcântara a Santa Apolónia) e criada na sequência das guerras da Restauração (1640-68). O projecto inicial afigurou-se demasiado ambicioso e acabou por ser reduzido a partir da década de 50 do século XVII.
Conforme documentam as cartas e o perfil da margem Norte do rio, na extremidade poente de Alcântara ao longo da ribeira, terminava essa muralha exterior de Lisboa. Extra-muros, existia uma ponte que estabelecia a ligação da cidade, através de uma porta da muralha, aos “arrabaldes” a nascente. Tratava-se de um local amuralhado, vigiado e certamente guarnecido.
Por diversas vezes vem, na cartografia, este local mencionado como Forte de Alcântara. Hoje temos conhecimento da existência do Forte do Livramento e do Forte do Sacramento, cada um localizado lateralmente relativamente a essa porta de muralha. Ambos os locais foram reconstruídos em 1650 no reinado de D. João IV, por ocasião do reforço da defesa do porto da capital após a restauração da independência.
É provável que estes dois postos tenham resultado de dois redentes da muralha existente, ou seja, duas formações angulares salientes para o exterior da fortificação e que pelas suas posições estratégicas tenham adquirido mais importância. O natural desenvolvimento urbano terá levado, posteriormente, à separação física destes dois elementos por absorção das construções amuralhadas adjacentes. Em 1857, como é possível verificar-se em planta, do forte do Livramento sobrou apenas uma área com canhoeiras e do forte do Sacramento, o baluarte de Alfarrobeira. No “Grande panorama de Lisboa” (1698-99) o monumento é bem visível, logo abaixo do Convento do Sacramento, tendo a fortificação que naturalmente lhe tomou a designação.
O baluarte do Sacramento perdurou na definição da paisagem durante mais tempo. Ao longo da sua face ocidental existia uma pequena caldeira, utilizada como doca de abrigo para pequenas embarcações. Tal uso perdurou até à sua destruição, aquando da sua cedência à Câmara Municipal de Lisboa para construção da Avenida 24 de Julho, em 1876, visto que: «A caldeira de Alcântara, contígua ao baluarte do Sacramento, que então servia para recolha e reparação de barcos e dos vapores das carreiras fluviais da empresa de Frederico Burnay, ficou cortada pelo aterro da rua (…)» (SILVA, 1960), sendo o restante conjunto do baluarte integrado no novo edificado emergente.
A cota superior do baluarte e os seus muros são arrasados, sofrendo um processo de aplanamento, e a antiga rampa de acesso, que ainda é observável numa planta de Silva Pinto de 1911, foi posteriormente entulhada e tapada.
José Manuel Garcia
Como citar: José Manuel GARCIA, “Forte do Sacramento (ou da Alfarrobeira)” in Lisboa em Azulejo antes do Terramoto de 1755, Pedro FLOR (coord.) site do Projecto de Investigação, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade NOVA de Lisboa, 2017.
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