SOBRE O EDIFÍCIO
O Arco das Amoreiras situa-se no troço final do Aqueduto das Àguas Livres, que estabelece a ligação ao Reservatório da Mãe da Àgua. Foi construído entre 1746 e 1748, segundo risco do arquiteto Carlos Mardel (1695–1763), empenhado nas obras do aqueduto desde 1735 e autor de todo o complexo monumental das Amoreiras. O arco é bem visível na Vista da Academia Nacional das Belas-Artes, onde se encontra representado detalhadamente em toda a sua carga hierárquica e ornamental.
O Arco das Amoreiras é o centésimo arco dos cento e nove que integram o Aqueduto das Àguas Livres, destacando-se pelo seu aparato arquitetónico e decorativo, que o torna o elemento gerador da arcaria final. Atravessa a antiga rua de São João dos Bem Casados – atual Rua das Amoreiras – e a sua implantação urbana deriva do desenho do conjunto que inclui o Reservatório da Mãe da Àgua, ao qual está ligado através de uma cortina de dez arcos, que atingem perpendicularmente esse edifício.
Carlos Mardel concebeu este arco como uma porta triunfal da cidade, destinada a celebrar e marcar visualmente a entrada das Águas Livres em Lisboa, como atesta a inscrição que originalmente[1] se encontrava colocada no seu lado norte: Aquae Liberae in Urbem Triumphalis Ingressus / Anno Domini 1748. O Arco das Amoreiras terá sido «o primeiro arco triunfal não efémero posterior à nacionalidade que Lisboa conheceu» (Rossa, 1998, p. 81); no seu risco reconhecem-se afinidades com uma versão do Arco Triunfal da Rua Augusta desenhada por Carlos Mardel, também autor do risco para o Arco da Rua de São Bento, outro elemento monumental – embora mais singelo – que assinalava a passagem das Águas Livres na rua de São Bento.
O Arco das Amoreiras assume claramente a sua função de porta da cidade — tendo sido, de facto, apelidado de “portalão” — através do uso da ordem dórica, considerada a mais apropriada para portas urbanas, de acordo com a tratadística. É rematado por um sóbrio frontão triangular que assenta sobre um entablamento, em cujo friso se dispõem placas em mármore com inscrições comemorativas. O frontão, por sua vez, é sobrestado por uma lanterna coroada por três urnas clássicas, formando um conjunto arquitetónico bastante eclético, com características que se repetem nos chafarizes e, de modo geral, em toda a intervenção de Carlos Mardel na obra do aqueduto (Rossa, 1994, p. 78).
Implantado numa zona que marcava o limite entre o espaço urbano e o rural, o complexo monumental do Reservatório da Mãe d’Água caracterizava-se como uma praça de entrada na cidade, onde o troço final do aqueduto se assumia como limite urbano, marcado pela porta triunfal do Arco das Amoreiras.
Michela Degortes
[1] Substituída por outra durante o reinado de D. José.
BIBLIOGRAFIA
MOITA, Irisalva (org.) – D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa, 2 vol., Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa 1990.
ROSSA, Walter – Arco das Amoreiras, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa:s.n, 1994, p.77 – 78.
ROSSA, Walter – Além da Baixa – Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa, 1998.
SILVA, Augusto Vieira da – O Arco e a Mãe D’Água das Amoreiras, Separata do Número Comemorativo da Exposição de Obras Públicas, do Boletim da Comissão de Fiscalização das Águas de Lisboa, Lisboa, [s.d.].
Internet
Aqueduto das Águas Livres – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106370253), Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6811 (consultado a 2026-01-29).