Aqueduto das Àguas Livres

SOBRE O EDIFÍCIO

Desde a época da sua construção, o Aqueduto das Águas Livres tem sido considerado uma obra-prima da arquitetura e da engenharia do século XVIII e um dos monumentos mais impressionantes de Lisboa, como atesta o vasto conjunto imagético a ele relacionado. Enquanto elemento marcante da paisagem urbana, o aqueduto encontra-se representado em diversas vistas panorâmicas da cidade, incluindo as vistas da Academia das Belas-Artes de Lisboa e do Museu Nacional de Arte Antiga. Na Vista da ANBA, surge representado no seu troço final, estando bem visível o arco triunfal das Amoreiras e a mole imponente do Reservatório da Mãe da Água. No Desenho do MNAA estão representadas três arcadas do mesmo troço, embora desenhadas de forma muito aproximativa. 

O problema de fornecimento e distribuição de água em Lisboa prendia-se com a localização das nascentes em zonas distantes da cidade, e com a impossibilidade dos seus habitantes de aproveitar dessas águas. A população de Lisboa servia-se então de poços e das águas que brotavam perto do rio Tejo, que vinham a ser canalizadas no Chafariz d’El-Rei e no Chafariz de Dentro e, a partir do seculo XVI, em outros chafarizes subsidiários (Moita, 1990, p. 9).

Existem, porém, testemunhos da existência de um aqueduto romano que servia Olisipo. Os vestígios desta construção são mencionados pela primeira vez por Francisco da Holanda (1517 – 1584) na obra “Da Fábrica que falece há cidade de Lysboa” (1571), onde se faz referência ao sistema de “conductos por baixo da terra, subterranhos” e ao “muro larguissimo e forte” que servia de represa às águas, que os romanos tinham construído.  O aqueduto romano se encontra mencionados por várias fontes nos séculos sucessivos, com destaque para as referências deixadas por Pedro Nunes Tinoco e Leonardo Turriano, empenhados nas medições durante os trabalhos preparatórios para a construção do aqueduto, realizados no reinado de Felipe II a partir de 1618. Cerca de um século mais tarde, o aqueduto romano seria referido também por Manuel da Maia (1677-1766), que teve um papel fundamental na realização do Aqueduto das Àguas Livres.

Com efeito, a iniciativa de construir um aqueduto só viria a ser retomada sob o reinado de D. João V. Em 1728, na sequência da proposta do procurador da cidade, Claúdio Gurgel de Amaral, foi lançado o projeto, com vista a resolver os atávicos problemas de carência de água, cada vez mais graves devido ao aumento da população, e especialmente significativos em Lisboa Ocidental. Seria, aliás, a própria população de Lisboa a custear a obra através do pagamento de impostos cobrados sobre o vinho, o azeite, a carne, o sal e a palha. Para o efeito, em 1729, os Senados de Lisboa Oriental e Ocidental foram autorizados, por decreto régio, a impor sobre os géneros que entendessem uma contribuição destinada à obra das Águas Livres.

Entre 1728 e 1731 foi efetuada uma série de verificações com vista a determinar a efetiva viabilidade da obra. Várias figuras foram empenhadas nas tarefas relativas à determinação e ao levantamento do percurso do aqueduto, bem como à verificação da existência de água suficiente para o abastecimento da cidade e à identificação das fontes de onde a água podia ser conduzida. Neste contexto, em 1730, coube aos engenheiros Manuel da Maia, Azevedo Fortes e José da Silva Pais, assinar o auto de vistoria.

A construção do Aqueduto das Águas Livres foi determinada por alvará régio de 12 de maio de 1731, ordenando-se o início da obra, que seria oficialmente dada por concluída em 1799. O longo processo de construção contou com a sucessiva intervenção de várias figuras na direção e supervisão das obras. Inicialmente terá sido apontado para o projeto o arquiteto italiano Antonio Canevari[1], embora em 1732 D. João V viesse nomear uma comissão de direção da obra composta pelos engenheiros Manuel da Maia, Azevedo Fortes e José da Silva Pais. A partir de 1736, os trabalhos prosseguiram sob a direção de Custódio Vieira, já responsável pelas medições e nomeado arquiteto da obra das Águas Livres a 27 de agosto do mesmo ano. Embora Manuel da Maia fosse afastado das obras, o traçado do aqueduto manteve-se conforme ao definido nas suas Considerações sobre o projecto da conducção das Águas, relatório redigido em 1731, também com base no Roteiro[2] precedentemente compilado por Pedro Nunes Tinoco (Rossa, 1998, p. 70).

No longo quadro cronológico da realização do aqueduto, uma data a assinalar é o ano de 1744, quando finalmente a água chega a Lisboa, sob a direção de Carlos Mardel – já envolvido nas obras desde 1735 – correndo para um tanque provisório instalado nas Amoreiras.  A partir do ano seguinte, nesta área viria a ser construído o complexo formado pelo reservatório da Mãe da Água e pelo Arco das Amoreiras, conjunto monumental celebrativo da entrada triunfal das águas em Lisboa.

Pela sua extensão, qualidade construtiva e conceção inovadora do ponto de vista técnico, o aqueduto constitui um unicum no contexto da produção arquitetónica portuguesa. Resistiu ao terramoto de 1755, facto que não deixou de impressionar os muitos viajantes estrangeiros que visitaram o país na sequência dessa catástrofe. Assim relatava Thomas Pitt, em 1760:

A cidade é abastecida de água por um majestoso aqueduto de pedra que a transporta durante 9 milhas, desde próximo de uma vila chamada Belas, a Oeste de Lisboa, por vezes em arcos, outras vezes por baixo do chão. Os arcos mais altos vêem-se no vale de Alcântara, onde um tem 112 pés e meio diâmetro por 225 de altura. Os outros que atravessam esse vale são muito grandes, embora inferiores a este, mas são arcos apontados, apesar de os restantes serem de volta perfeita. […] È difícil encontrar outro edifício que tenha sobrevivido [ao terramoto] e valha a pena de descrever.

Embora oficialmente concluídas em 1799, as obras prosseguiram com a realização da rede de distribuição e dos diversos chafarizes espalhados pela cidade, prolongando-se ao longo do século XIX, após a conclusão do reservatório da Mãe da Água (1835). Em 1858 e em 1867 foram constituídas, respetivamente, as Primeira e a Segunda Companhia das Águas de Lisboa. No começo do século XX, o sistema de abastecimento de água começou a falhar, tornando-se progressivamente precário, até que, em 1967, se terminou definitivamente a exploração de água do Aqueduto de Lisboa. Nessa época, o Aqueduto das Águas Livres e o Reservatório da Mãe da Água foram encerrados e passaram a integrar o património do Museu da Água.

O Aqueduto é classificado como Monumento Nacional por decreto de 16 de junho de 1910.

                                                                                                                        Michela Degortes


[1] Sobre a questão do afastamento de Canevari e, sucessivamente, de Manuel da Maia, e sobre as polemicas entre Canevari e os engenheiros militares portugueses veja-se Rossa, 1998, 188, n.201.

[2] Trata-se das“Considerações sobre o projecto da condução das Aguas; chamadas Livres, ao Bairro Alto; e explanações sobre as mesmas considerações, offerecidas ao S.r. D.João V, por Manuel da Maya, 1731” e do “Roteiro da Àgoa Livre” de Pedro Nunes Tinoco, de 1720.


BIBLIOGRAFIA

CASTILHO, Júlio de – A Ribeira de Lisboa. Descrição Histórica da Margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho. 2ªed. Lisboa: CML, 1954-1966.

MOITA, Irisalva (org.) – D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa, 2 vol., Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1990.

ROSSA, Walter – Aqueduto das Àguas Livres, in F. Santana & E. Sucena (Eds.), Dicionário da História de Lisboa, Lisboa: s.n, 1998, pp. 70-74.

ROSSA, Walter – Além da Baixa – Indícios de Planeamento Urbano na Lisboa Setecentista, Lisboa: IPPAR, 1998.

PITT, Thomas – Observações de uma Viagem a Portugal e Espanha (1760). (M. J. Neto, Ed.), Lisboa: IPPAR, 2006.

Internet

Aqueduto das Águas Livres  – Ficha de Inventário do Património Arquitectónico PT031106370253, Lisboa, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais / Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6811 (consultado a 2026-01-29).

Aqueduto das Águas Livres, seus aferentes e correlacionados (Concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Oeiras e Sintra), em https://imovel.patrimoniocultural.gov.pt/detalhes.php?code=70216 (consultado a 2026-01-29).


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